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Ilusões empresariais

15 July 2012

O velho Balzac notou certa vez que a mentira pode ser uma virtude quando um advogado, ocultando apreensões, transmite esperança ao cliente. Tendo passado boa parte da vida fugindo de credores, o francês entendia do assunto. Em matéria societária, os advogados não raro são colocados sob a suspeita de causar constrangimento aos sócios envolvidos quando tentam adotar cláusulas para prevenir desavenças futuras. É mesmo dos diabos quando a sociedade está prestes a ser formada e vem o profissional propor medidas preventivas na suposição do conflito em potencial. O mal-estar se instaura entre as partes. É quando o veneno balzaquiano soa mais irônico.

Estas situações são mais delicadas e cruciais nas associações paritárias, associações entre concorrentes, associações baseadas na honra pessoal e empresas familiares. Nas associações paritárias, onde cada um dos sócios detém a metade do capital da sociedade, a possibilidade de bloqueio decisório defensivo é enganadora, pois nenhuma sociedade pode evoluir e desenvolver-se sob a premissa da inação, do impedimento, do veto instantâneo, salvo sob um vínculo de natureza muito pessoal e, portanto, subjetivo, falho, sujeito aos ventos de ocasião.

Nas associações entre concorrentes, onde a premissa de harmonia sustenta-se na possibilidade de dano que um sócio possa causar ao outro, a crise é rotina, já que cada sócio anseia mais o bloqueio do concorrente do que contribuir para seu desenvolvimento. Comete-se, aqui, um erro comum que é o de compartilhar a gestão da sociedade, atribuindo a cada parte uma área de influência ou mesmo de decisão na empresa. Em vez de conforto, esta medida acirra disputas contrárias ao interesse do conjunto, que é a sociedade como um todo.

Nas associações baseadas na honra pessoal — é impressionante sua existência ainda em nossos dias — raramente estas resistem à sedução de “trair” a palavra empenhada. É surpreendente que a sugestão de um tratamento profissional encontre resistências. É que a palavra de honra, esta senha mágica, foi empenhada e torna-se a própria razão do problema. A ideia de afinidade, de harmonia societária, agasalhada pelos romanos na expressão affectio societatis, soa como poesia lírica nos tempos atuais, onde as sociedades de pessoas naturais foram substituídas pelas sociedades entre pessoas jurídicas. Pesa, aqui, a célebre sentença de Valéry quando denunciou que “o poder sem abuso perde o encanto”.

Nas empresas familiares, temos a ilusão de que a natural descendência sanguínea seria suficiente para impedir a crise societária. A realidade nos mostra que este mesmo fator pode ser motivo de desagregação. Basta olhar a história da família real britânica, não por acaso conhecida como “A Firma”, para que a imagem consolidada se desmanche. As desavenças familiares prosperam à sombra da proteção patriarcal ou matriarcal, cuja falta, por doença, morte ou separação conjugal, explode a estrutura de negócios que parecem sólidos como o aço. Machado de Assis não estava exatamente tratando de dinheiro quando Brás Cubas disparou: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

A elaboração de acordos prévios entre sócios exige a negociação de soluções para problemas potenciais. Sim, é cansativo e exige imaginação, mas esta é mais fértil quando não há rupturas ou ressentimentos no horizonte. Os jornais nos falam de crises societárias nos casos Odebrecht versus Grandin, Diniz vs Casino e Landin vs Batista, para mencionar os mais notórios e mais importantes, porém, na burocracia da Justiça, os conflitos societários são milhares e abarrotam os cartórios, causando a paralisação da atividade econômica e a bancarrota de milhares de associações, que de início pareciam perfeitas, mas fracassaram porque, na sua origem, os sócios subestimaram a crise e a falha humana que são a constante na vida, e não a sua exceção.





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